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Ensaio.Hamlet

10 fev

Ensaio.Hamlet- Cia dos Atores

Uma análise deste espetáculo

“A alegria evita mil males e prolonga a vida”

Willian Shakespeare

“Não leve a vida tão a sério”, diz um dos velhinhos na mesa do botequim. “Seremos carrancudos ou riremos feito hienas?”, pergunta outro,  um tempo depois, bem no meio da conversa. “Qual é a famosa medida do justo?…”, exclama um terceiro, cinco minutos mais tarde. “Hamlet refletiria diferente se fosse brasileiro ao invés de dinamarquês?” No bar, qualquer assunto pode ir muito longe. O coletivo da mesa vai criando uma tessitura de palavras, geralmente acompanhada de bom humor, que dá margem a todos os tipos de delírios. O bar convida ao riso. Fala-se a sério, porém não tão sério assim. Um dos velhinhos, no dia seguinte, pensa: “Rimos tanto de assuntos tão sofridos e profundos, porém não me pareceu que estivéssemos sendo superficiais”.

Hamlet é uma tragédia. Porém há diversas maneiras de se contar uma história.  É em um clima de bar (do bar retiro apenas o clima), em que todos vão dando as suas interpretações, de maneira criativa e bem humorada, que a história vai se desenvolvendo neste espetáculo. Esta é uma peça de atores, bem resolvida quanto a estrutura global, quanto a direção, porém tem primordialmente características de uma dramaturgia de ator de forte autoria. Observa-se que foi a partir da escrita destes que a obra foi construída.

O espetáculo navega em duas camadas simultâneas: ao mesmo tempo em que ele conta a história, ele a comenta. Cada cena do texto de Shakespeare é material para uma nova cena em que uma terceira visão será incluída. Esta se relaciona fortemente com uma leitura bem atual da obra. Como seria a mãe de Hamlet nos dias atuais?

Inventivamente o grupo realiza uma leitura própria do universo de Hamlet, trazendo a obra para um interessante diálogo com a atualidade, com o mundo contemporâneo. Ensaio.Hamlet possui características paradoxais, visto que, ao mesmo tempo em que explode a obra em pedaços, também a coloca em evidência. Conta a narrativa com começo, meio e fim, porém pelos caminhos menos aristotélicos possíveis. É uma desconstrução que constrói, que é feita para compreender Hamlet, para obrigar-nos, através do riso, do comentário, da pluralidade e dos recursos de linguagem cênica a pensar em problemáticas cruciais da peça que, muitas vezes, podem passar despercebidas em uma montagem convencional.  Mostram-se pontos de vista.

Esta característica de uma “interpretação pessoal” de Hamlet acaba sendo exigência a qualquer encenador que queria tratar de Shakespeare. É interessante pensar que um autor, cuja personalidade escapa entre os dedos, exija de seus diretores e atores uma postura tão definida.

 A desconstrução da desconstrução a nada leva, é o mesmo que quebrar entulhos. O imaginário em torno desta obra de Shakespeare é concreto e comum: a grande maioria do público teatral conhece Hamlet, não só o conhece como já assistiu a muitas de suas montagens. Existe quase um pressuposto que o espectador tem informações sobre ele. Os virgens em Shakespeare não se sentirão perdidos nesta narrativa, porém, mais prazeroso será para aquele que já está familiarizado com a peça.  Desmonta-se a obra para montá-la de volta.  É como se o grupo quebrasse uma parede de azulejos e a revestisse com um mosaico destes mesmos azulejos. Está parede se constrói no imaginário do espectador, sendo quebrada e refeita ao mesmo tempo.

Há uma via de comunicação subjetiva que vai acontecendo através de elementos que não tem uma decodificação clara, tão pouco explicitada, nos fazendo recordar, de certa forma, porém em um contexto completamente distinto, dos ready-mades de Kantor. Objetos que por si só são carregados de sentido, porém que, mesmo carregados destes, apresentam-se em outros contextos, fora da sua realidade cotidiana. Uma toca de banho e um grande saco plástico são elementos utilizados para o universo do fantasma. Bolinhas de ping-pong, bonecos infláveis, ferro de passar, vestidos presos em cabides, livros, mesas, gizes, tapetes vermelhos, microfones, câmeras de tv, etc., são um quase infindável número de objetos que se configuram, a serviço da cena, das maneiras mais criativas possíveis.

A dramaturgia transpassa uma sensação de liberdade de corpo e mente que a faz viva e dinâmica. Não importa que os personagens, que eram bonecos em uma cena, se transformem em gente em outra, que os Hamlets mudem, que haja troca de papéis, que Laertes tire a roupa e, ao colocar um vestido, transforme-se em Ofélia, porque a coerência não é dada pelo todo.   

O contexto dramático, o desenvolver da peça não é dado através de um acumulo de situações, de uma situação que se conecta a outra e desenrola-se até chegar a um clímax que explode. As cenas parecem ter independência uma das outras, existirem por si só. E é, enquanto cenas, que elas resolvem à problemática da narrativa global. De algo que brota mais delas do que do acumulo de situações passadas, como blocos independentes e com características únicas. Está no conhecimento teatral de ritmo, tempo e espaço, de montagem, de arquitetura e justaposição que a peça se sustenta, e na virtude de cada cena em si.

Duas características repetem-se: a maneira com são feitas as transições: dinâmicas e geralmente com a participação de todos os atores e o recurso da narração como uma forma de fazer a história seguir. Conta-se através da terceira pessoa, encurtando narrativas que estariam na boca dos personagens.

As dinâmicas físicas, rítmicas e sonoras deste espetáculo são muito intensas, trabalha-se principalmente no grau da atitude. Há um constante fluxo entre cenas individuais e outras com a participação de todo o coletivo. Os personagens, via de regra, mantêm-se, salvo Hamlet, que passa pelo corpo de muitos e, às vezes, é representado por vários ao mesmo tempo.   

O grau de energia utilizado no decorrer da peça é alto, a sonoridade é intensa e se utiliza bastante da voz forte, quase gritada, o ritmo espacial é borbulhante. Estas características, porém, não se apresentam nos momentos de maior intensidade da peça. Fazendo com que toda esta intensidade aconteça não em cena, mas na cabeça do espectador. O silêncio também é utilizado para dar maior peso a estes momentos.

 “Nove pessoas! Nove pessoas morrem neste espetáculo! Nove pessoas”, diz um dos atores. Diz isto em uma transição entre cenas, bem no principio do espetáculo. O público, que espera ver os corpos caírem ao chão no decorrer da narrativa, vê apenas um: o de Polônio. Minutos depois, ele se levanta como si nada houvesse acontecido, Hamlet o recorda: “deita ai, você está morto”, com ares de perdido, o ator se deita.  Temos ai um jogo metalingüístico de natureza cômica muito conhecido: o de lembrar a um ator que ele está representando. Porém, é interessante notar a presença deste jogo neste espetáculo, pois este se utiliza das maneiras mais inusitadas para transpor a cena situações da peça, quando a morte finalmente é representada de forma comum por um corpo caído em cena, a cena ironiza a representação.

Na encenação da morte do rei, os personagens do rei e da rainha representam a si próprios, ou seja, fazem a encenação deles mesmos. Não é um ator fazendo um ator que representa a rainha. É uma atriz fazendo a rainha em um contexto que era para ser de representação, e o é, ao mesmo tempo em que não o é, visto que esta representa a si própria. O rei e a rainha se assistem dentro deles mesmos. Mais do que um caráter de representação de atores, temos a impressão de um flashback, como se estivéssemos assistindo ao próprio ato. Esta opção poética dá um caráter obtuso à cena. Quem é que esta representando e quem é que esta sendo representando? O nó de um ator em estado de representação que representa um ator em estado de representação se transforma no nó do ator que representa um personagem que se auto-representa em uma situação de representação, mas que ao mesmo tempo não é ele, e sim outro, dado o contexto de construção da cena. Enfim, nós para delírios de bar, como tantos outros, neste espetáculo.   

Há uma cena em que uma atriz representa uma cena sobre a sua dificuldade de representar Ofélia. Isto não vem como uma desculpa para a não representação de Ofélia, a atriz o faz, porém como maneira de acrescentar novas reflexões sobre a personagem Ofélia. Quando esta assume a personagem ao ler uma carta de Hamlet, na mesma cena, temos conjuntamente a representação de como uma adolescente fica ao ler cartas de amor e da personagem enamorada.

A mãe de Hamlet é daquelas mães que na realidade não sabem muito bem como sê-lo; que dá “mau exemplo” ao filho e mesmo assim se queixa de que ele o siga; que tenta agradar mas não sabe muito bem como. Não tem muita consciência de seus atos, é uma desesperada, tomada pelos sentimentos e sem saber como lidar com as situações que aparecem, consumida pelos vícios, com ares de depressiva, puro mundo contemporâneo. Não sabe como passar os valores porque é a própria ausência destes. É aquela que fala com a porta do quarto do filho, porque imagina que este permaneça trancado dentro e depois, percebe que, em realidade, fala com a porta e não com o filho.

Polônio assiste a uma cena escondido, mas assiste com uma câmera nas mãos, alusão a todo o sistema de câmeras infiltradas, as câmeras dos reality shows que assistem a vida das pessoas, um voyeur das emoções alheias.  Explicita-se a violência da câmera que filma. Existe o dialogo da mãe com o filho sobre violência, ao mesmo tempo, em que esta ocorre, mostra-se a câmera que agride, as mãos que violentam, a nudez que incomoda.

O fantasma tem voz através de uma alusão ao espiritismo. No começo, as diversas taças de cristal cheias de água dão a primeira pista; depois a maneira sussurrada como este se expressa, o livro sempre em mãos contém a palavra, os trejeitos, o diálogo que ocorre em uma mesa com as mesmas taças d´água do principio. Este homem fala em nome do fantasma, não o é, mas o representa. É interessante pensar que em teatro, o fantasma nunca é senão uma representação deste.  Mesmo sendo uma representação da representação do fantasma, este não perde seu caráter de existência e realidade.

Os elementos muitas vezes são utilizados literalmente. Quando se diz cobrir de pó como metáfora, a metáfora é posta em cena como se esta fosse literal. O ator cobre-se de pó e a transposição literal evidencia a metáfora, fazendo com que esta ganhe uma força de realidade, porque metáforas têm natureza ambígua: ao mesmo tempo em que dizem uma coisa querem dizer outra, a coisa própria e a coisa própria grifa em outro plano a metáfora. Ofélia é agora um pedaço de carne, briga-se por um pedaço de carne, literalmente. Enterra-se “Ofélia” em um balde, em um buraco e esta é coberta pela terra que se despeja de um saco. 

Depois do enterro, os dois, Hamlet e Laertes, trocam de papel. E o duelo final não acontece fisicamente, não há morte, porém se vê a morte. Ela é representada pelos atores que tiram as roupas que caracterizam as personagens: eles estendem-nas no chão e depois saem tranqüilamente de cena. Enquanto isto, os atores desenvolvem um texto de frases, que, jogadas ao vento, ganham forma de acontecimento aos ouvidos do espectador. A sensação é a de um mundo desabando em cena, porém a materialidade desta é feita de atores sentados, sem muito movimento, sem exprimir grandes emoções, quase neutros, enquanto outros, também neutros, retiram-se lentamente de cena. A hecatombe acontece no imaginário do público.

 Gordon Craig dizia que se devia proibir a encenação de Shakespeare. A arte teatral tem seus próprios recursos e deve trabalhar a partir de tais. Shakespeare deve ser deixado apenas para o âmbito da literatura. Orson Welles, em uma entrevista, diz que “todos nós traímos Shakespeare”, falando sobre a impossibilidade de manter-se fiel a toda dramaturgia escrita. E Peter Brook afirma que é somente quando nós esquecemos Shakespeare é que podemos começar a encontrar-lo. Neste caldeirão, parece que Cia dos Atores encontrou uma boa saída: trabalha através de recursos de natureza essencialmente cênica e se distancia bastante de Shakespeare para encontrá-lo no momento em que o esquece e que o trai e faz do espetáculo um bom material de discussão, transformando cada cena em assunto para horas e horas a fio, bom para qualquer mesa de bar.

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