Ismael Ivo + Anne Bogart – O Terror

1 out

Olá leitores queridos

Escrevo-lhes da casa de seu Douglas Novais, que continua a Europa em seu congresso do Aristóteles. Há 1 semana os Geraldos voltaram a idade das pedras: estamos isolados do mundo sem internet na sede. É incrível como o homem moderno depende disto.  Como é que vivíamos há alguns atrás totalmente independentes? É quase inconcebível um mundo sem rede.

Antes de nos entregarmos à grande Anne Bogart e uma seleção de trechos do capítulo O Terror, preciso falar-lhes um pouquinho de Ismael Ivo, uma lenda viva da cultura mundial, que tivemos o privilégio de conhecer.

Toda última quarta-feira do mês alguns Geraldos vão para São Paulo nas reuniões gerais do projeto Ademar Guerra. Nesta última quarta fomos eu e Paula. Sortudas! Lá estava Ismael Ivo, o curador artístico do projeto Ademar categoria dança, que será inaugurado ano que vem. Ismael é destes artistas que inflamam e contagiam todos à sua volta. Ouvindo suas histórias e relatos, começamos a nos sentir sedentos, esfomeados por aprender mais e mais, por buscar as mais diversas referências, sair pelo mundo atrás dos grandes.  A bagagem de Ismael é inacreditável: ele já trabalhou com Miriam Muniz, Yoshi Oida, Heiner Müller, Pina Bausch, Kazuo Ohno, Marina Abramovic e muitos outros, que minha reles memória não me permitirá escrever.

Enfim… isso tudo é pra dizer que o nome deste dançarino merece ser jogado no youtube. Tentei encontrar uma famosa coreografia em que Ismael, um negro de 2 metros de altura, dança entre lírios brancos, mas não encontrei. Essa idéia arrepia só de pensar. Vamos então à outro vídeo:

 

 

E agora, como prometido, passo a palavra à Anne Bogart. Bons estudos!

diretor3

“Nascemos aterrorizados e tremendo. Em face de nosso terror diante do caos incontrolável do universo, rotulamos tudo o que podemos com a linguagem, na esperança de, uma vez que algo tenha sido nomeado, não precisarmos mais temê-lo. Essa rotulação permite que nos sintamos mais seguros, mas também mata o mistério daquilo que foi rotulado, removendo a vida e o perigo do que foi definido. A responsabilidade do artista é trazer de volta o potencial, o mistério e o terror, o tremor. James Baldwin escreveu: “O propósito da arte é desnudar as questões que foram ocultas pelas respostas.” O artista tenta remover a definição, apresentar o momento, a palavra e o gesto como algo novo e cheio de potencial incontrolável.

 

Acredito que a função do teatro seja nos lembrar das grandes questões humanas., nos lembrar de nosso terror e de nossa humanidade. Em nossa vida cotidiana vivemos em uma repetição contínua de padrões habituais. Muitos de nós passam a vida dormindo. A arte deve oferecer experiências que alterem esses padrões, despertem o que está adormecido, e nos lembrem de nosso terror original. O seres humano criaram o teatro como uma reação ao terror cotidiano da vida. (…) Descobri que o teatro que não incorpora o terror não tem energia. Nós criamos a partir do medo, não de um lugar seguro e tranqüilo. Segundo o físico Werner Heisenberg, artistas e cientistas compartilham a mesma abordagem. Eles mergulham em seu trabalho com uma mão firmemente agarrada no que é específico e a outra mão no desconhecido. Temos de confiar em nós mesmos para penetrar neste abismo de maneira aberta, apesar do desequilíbrio e da vulnerabilidade. Como confiar em nós mesmos, em nossos colaboradores e em nossas habilidades a ponto de trabalhar dentro do terror que experimentamos no momento de entrar?

 

 A graça redentora do trabalho é o amor, a confiança e o senso de humor – confiança nos colaboradores e no ato criativo durante o ensaio, amor pela arte e senso de humor a respeito da tarefa impossível.

 

Normalmente acho um jeito de prosseguir entre a pesquisa e a fase de ensaios de mesa, onde acontecem as inevitáveis discussões dramatúrgicas, a análise e as leituras. Mas então, sempre chega o momento temido de pôr alguma coisa no palco. Como algo pode estar certo, ser verdadeiro ou adequado? Tento desesperadamente achar uma desculpa para fazer outra coisa, para deixar para mais tarde. Quando finalmente temos de começar de fato o trabalho no palco, tudo parece artificial, arbitrário e afetado. (…) Felizmente, depois de algum tempo nessa dança de insegurança, começo a notar que os atores estão realmente começando a transformar a encenação sem sentido em alguma coisa com que posso me entusiasmar. E à qual posso reagir.

 

Direção tem a ver com sentimento, com estar na sala com outras pessoas; com atores com designers, com um público. Tem a ver com a percepção de tempo e espaço, com respiração, com a reação plena à situação dada, com ser capaz de mergulhar e estimular o mergulho no desconhecido no momento certo.   

 

No desequilíbrio e na queda encontra-se o potencial de criar. Quando as coisas começam a cair aos pedaços no ensaio, a possibilidade de criação existe.

 

Rollo May escreveu que todos os artistas e cientistas, ao realizar seu melhor trabalho, sentem como se não estivessem fazendo a criação; sentem como se algo falasse através deles. Isso sugere que o problema constante que enfrentamos nos ensaios é como podemos parar de atrapalhar a nós mesmos? Como podemos nos transformar no veículo através do qual algo se expressa? Creio que parte da resposta está na aceitação do terror como motivação primordial e, depois, na plena escuta corporal que brota dele.

 

De que maneira podemos expressar sentimentos senão entrando no fundo deles? Como podemos capturar o mistério de angústia a menos que nos unamos à angústia? Shakespeare viveu a vida atordoado pela grandiosidade desta e em seus critérios tentou captar o que sentia, captar essa paixão de forma simbólica. Atraído para a intensidade da vida, ele reapresentou essa intensidade na linguagem. E por quê? Porque a beleza o atordoava. Porque a alma não pode aprisionar tais sentimentos.     

 

Até semana que vem 🙂

Jaque

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