Anne Bogart: A preparação do diretor – Timidez

28 out

Olá Internautas

Como prometido, seguimos esta semana estudando o livro “A Preparação do Diretor”.

Lembrando que esta é uma seleção feita por mim e que, infelizmente, muitos trechos que podem ser interessantíssimos para você leitor, permanecerão nas páginas do livro, aguardando sua leitura 🙂 Tudo é tão interessante que a vontade é transcrever o capítulo todo.

 

livro anne

 

Com vocês Anne Bogart:

Todo ato criativo implica um salto no vazio. O salto tem de ocorrer no momento certo e, no entanto, o momento para o salto nunca é predeterminado. No meio do salto, não há garantias. O salto pode muitas vezes provocar um enorme desconforto. O desconforto é um parceiro do ato criativo – um colaborador-chave. Se seu trabalho não o deixa suficientemente desconfortável, é muito provável que ninguém venha a ser tocado por ele.  

 

Quando se busca a autenticidade, não se pode esperar encontrar segurança e serenidade dentro de formas, peças, canções ou movimentos herdados. O que é preciso é reacender o fogo dentro da repetição e estar preparado para se expor aos seus efeitos. Esteja preparado para se sentir desconfortável.

 

Representar é metade vergonha, metade glória. Vergonha de se exibir, glória quando se esquece de si mesmo. 

                                                                                                                                                                John Gielgud

 

O desconforto é um mestre. (…) A insegurança mantém as linhas tensas. Se você tenta evitar sentir-se desconfortável com o que faz, não vai acontecer nada, porque o território permanece seguro e não é exposto. O desconforto gera brilho, realça a personalidade e desfaz a rotina. 

(…)

Quando é escalado para determinado papel, o ator também se vê diante de uma escolha de postura. Se decidir considerar o personagem como alguém cuja visão está além de sua experiência limitada, o resultado será sensivelmente diferente do resultado de alguém que decide ver seu personagem menor que ele próprio. O primeiro viverá uma aventura maior e mais pessoal e, consequentemente, mais desconfortável. O segundo raramente experimentará qualquer coisa que já não lhe seja familiar. Durante o ensaio, ele inevitavelmente pronunciará as terríveis palavras “Meu personagem nunca faria isso”.  

 

O inimigo da arte é a pretensão: a pretensão de que você sabe o que faz, de que sabe como andar e como falar, a pretensão de que aquilo que você “quer dizer” significará a mesma coisa para aquele que o ouvem. 

 

Durante o processo de pesquisar a angústia necessária do desconforto, encontrei dez idéias úteis para enfrentar os momentos difíceis:

 

1- Você não pode se esconder; seu crescimento como artista não está separado de seu crescimento como ser humano: é tudo vísivel. 

Você tem de ter um motivo para fazer o que faz porque esses motivos são percebidos por qualquer pessoa que entre em contato com seu trabalho. É importante o modo como você trata as pessoas, como assume responsabilidade em uma crise, que valores desenvolve, sua posição política, o que você lê, como fala e mesmo as palavras que escolhe. Você não pode se esconder.

(…)

O diretor Tadashi Suzuki observou: “Não existe a boa ou a má atuação, apenas graus de profundidade do motivo pelo qual o ator está no palco.” Esse motivo manifesta-se em seu corpo e em sua energia.

(…)

O ingrediente principal de um ensaio é o interesse real e pessoal. E o interesse é um dos poucos componentes no teatro que não tem absolutamente nada a ver com artifício. Você não pode fingir interesse. Ele tem de ser genuíno. O interesse é seu motor e ele determina a distância que você vai avançar no calor do compromisso. É também um ingrediente que oscila e que muda ao longo do tempo. Você tem de ser sensível as suas vicissitudes (mudanças). 

 

2- Todo ato criativo implica um salto

Segundo Rollo May, em seu livro “A coragem de criar”, ao longo da história artista e cientistas concordam que, em seus melhores momentos, sentem que algo fala através deles. Eles conseguiram, de alguma forma, não atrapalhar a si mesmos. Alguns dizem que Deus fala através deles.

 

3- Não podemos criar resultados; só podemos criar as condições para algo acontecer

(…) Os resultados surgem por si só. Com uma mão firme nas questões específicas e a outra estendida para o desconhecido, começa-se o trabalho.

(…)

Ensaiar não é forçar as coisas acontecerem; ensaiar é ouvir. O diretor ouve os atores. Os atores ouvem uns aos outros. Você ouve o texto coletivamente. Ouve pistas. Mantém as coisas em movimento. Experimenta. Não encobre momentos como se eles estivessem subentendidos. Nada está subentendido. Você presta atenção na situação à medida que ela evolui.

(…)

Se você cuidar das condições em que está trabalhando, as coisas começam inevitavelmente a acontecer.

 (…)

Para chegar a um lugar onde algo suficientemente desconfortável possa ocorrer, coloco minha atenção nas condições do ensaio. Cuido do estado da sala, incluindo pontualidade, ausência de confusão e limpeza. Quando começamos a ensaiar, eu me concentro nos detalhes. Muitas vezes não importa que detalhes são esses, mas meu ato de concentração ajuda a harmonizar tudo e todos. Tento estar presente da maneira mais plena possível, ouvir com todo o meu corpo e então reagir instintivamente ao que acontece. O processo criativo acontece por si só.  

 

4- Para entrar no paraíso geralmente é preciso usar a porta dos fundos

(…) O comportamento afetado que encontramos no palco surge da hiperconsciência que o ator tem de si mesmo enquanto atua.

 

Ao longo da vida, Stanislavsky descobriu métodos para ocupar o lobo frontal do cérebro do ator. Ele também deve ter concluído que para entrar no paraíso é preciso ir pela porta dos fundos. Stanislavsky inventou mecanismos úteis de distração (a porta dos fundos) para que você tire a si próprio do caminho a fim de obter espontaneidade e naturalidade (paraíso) no palco. A esses desvios úteis ele atribui nomes como “determinadas circunstâncias”, “motivação”, “justificação”, “o mágico se”, “objetivos e superobjetivos”.  

Como você sai do próprio caminho? Primeiro aceite o paradoxo de que o teatro é artifício, embora busquemos a autenticidade – a arte, como disse Picasso, é a mentira que diz a verdade. 

(…)

O Ator sabe que para colher um momento autenticamente não tendencioso no palco, ele não pode simplesmente tentar ser genuíno. Nunca é tão simples. Não mais do que poderíamos, por exemplo, tocar violino com autenticidade sem lutar com a técnica. O ator enfrenta esse conflito diariamente ao aprender a lidar com o artifício através do treinamento e da prática. Um bom ator sabe que ele atua em parte como marionete e em parte graças a inspiração verdadeira, inteligência intuitiva e atenção. Ele se concentra em negociar o artifício – o tamanho do palco, a marcação, o texto, os figurinos, as luzes – até o ponto em que a mente consciente fica ocupada com alguma outra coisa de modo que a espontaneidade e a naturalidade podem chegar sem ser impedidas.

(…)

Como não podemos olhar diretamente para o Sol para não ferir os olhos, olhamos para o lado com finalidade de sentir o Sol. A naturalidade acontece quando nos concentramos não na coisa em si, mas no que está ao lado dela. 

 

5-Permita-se desequilibrar-se

A maior parte das pessoas se torna altamente criativa em meio a uma emergência. No instante de desequilíbrio e da pressão, é preciso encontrar soluções rápidas e adequadas para grandes problemas imediatos. É nesses momentos de crise que a inteligência nata e a imaginação intuitiva entram em campo. 

 

A arte começa na luta pelo equilíbrio. Não se pode criar em estado de equilíbrio. O desequilíbrio produz uma dificuldade que é sempre interessante no palco. (…) A rotina é adversária do artista. Na arte, a repetição inconsciente da zona de conforto nunca é vital ou excitante. Precisamos ficar atentos em face de nossas tendências para a rotina. 

 

6- Sentir insegurança é legítimo

É um tormento subir ao palco, mas, por outro lado, é o único lugar onde sou feliz.

                                                                                                  Bob Dylan

O trabalho do diretor não é oferecer respostas, mas sim provocar interesse. É preciso encontrar as perguntas certas e perceber quando e como fazê-las. Se você já tem as respostas, então para que ensaiar? Mas com certeza você precisa saber o que está procurando.   

 

7- Usar acidentes

As coisas sempre saem erradas. É comum acontecer o que você não planejou. Sigmund Freud sugeriu que não existe acidente. Será que o acidente pode ser um sinal? Será que ele está chamando nossa atenção? O acidente contém energia – a energia de formas não controladas.

Normalmente, quando algo dá errado, recuamos. Queremos reavaliar. Será que esse impulso pode ser invertido? No momento em que as coisas começam a dar errado, será que podemos penetrar no evento em vez de nos esquivarmos dele?

 

(…) Se nada é acidental e tudo é matéria-prima e acontece por uma razão, os acidentes podem ser canalizados para a forma do espetáculo. E essas formas contêm energia, memória e a indispensável ambiguidade.

 

8- Andar na corda bamba entre controle e caos

Se o seu trabalho é controlado demais, ele não tem vida. Se é caótico demais, ninguém consegue percebê-lo nem ouvi-lo. 

Durante o ensaio, você tem de estabelecer algo, concordar com alguma coisa. Se você predetermina tudo, se há concordância demais, não restará nada para a inspiração do momento do espetáculo. Alguns aspectos do processo têm de ser deixados completamente em paz. Controlar demais em geral significa que não há confiança suficiente na espontaneidade do ator e na capacidade do público de contribuir com o evento.

 

9- Faça sua lição de casa e saiba quando parar com a lição de casa

Pesquise, analise, faça associações livres, conceitue, prepare 150 idéias para cada cena, escreva tudo e então esteja pronto para jogar tudo fora. É importante se preparar e é importante saber quado parar de se preparar. Você nunca estará pronto e tem de estar sempre pronto para esse passo. Sua preparação o leva para o primeiro passo. E então outra coisa assume o comando.

 

10- Concentre-se nos detalhes

Em caso de dúvida, quando você estiver perdido, não pare. Em vez disso, concentre-se no detalhe. Olhe em torno, encontre um detalhe para se concentrar e faça isso. Esqueça um pouco o quadro geral. Ponha sua energia apenas nos detalhes do que já está ali. O quadro geral vai se abrir e se revelar se você ficar um pouco fora do caminho. No entanto, não vai se abrir se você pensar. É preciso permanecer envolvido, mas não sempre com o quadro maior.

 

diretor2

 

Fim do capítulo.

Ufa… esse post ficou mais longo do que eu esperava. A culpa é toda da Anne (Já somos íntimas. É que tenho a impressão de que quando se lê um livro gostoso, vira-se íntimo daquele que escreve), que me deixa nesse dilema de qual trecho dividir com vocês.

 

Até semana que vem 🙂

Jaque Geralda

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s