Memória – “A Preparação do Diretor” de Anne Bogart

4 dez

Olá leitores

Como prometido, segue o último capítulo que eu estava devendo do livro “A preparação do diretor” de Anne Bogart. Na verdade, este é o primeiro do livro.

Boa leitura!

diretor2

O ato da memória é um ato físico e está no cerne da arte do teatro. Se o teatro fosse um verbo, seria o verbo“lembrar”.

Os artistas não devem se afastar de seu tempo. Eles devem se jogar na luta e ver o que podem fazer de bom ali. Em vez de manter uma distância segura dos fétidos pântanos dos valores do mundo, devem mergulhar de cabeça neles e agitar as coisas.

A memória desempenha um papel extremamente importante no processo artístico. cada vez que se monta uma peça, está se dando corpo a uma memória. Os seres humanos são estimulados a contar histórias a partir da experiência de lembrar de um incidente ou de uma pessoa.

A verdade não pode estar lá fora – não pode existir independente da mente humana… O mundo está lá fora, mas as descrições do mundo não estão. Só as descrições do mundo podem ser verdadeiras ou falsas. O mundo em si – sem a ajuda das atividades descritivas dos seres humanos – não pode.

Raymond Rarty

O que é cultura? Acredito que cultura é experiência compartilhada. E ela está em constante transformação. (…) Imagine um vasto campo em uma noite fria de inverno. Espalhadas pelo campo, fogueiras acesas, cada uma com um grupo de pessoas bem juntinhas para conservar o calor. As fogueiras representam a experiência compartilhada ou a cultura de cada grupo reunido em torno de cada fogueira. Imagine que alguém se levanta e atravessa o campo frio, escuro, ventoso, até outro grupo reunido em torno de outra fogueira. Esse ato de força representa a troca cultural. E é assim que as idéias se espalham.

Lembrar as pessoas e os acontecimentos e redescrevê-los é usá-los, é subir sobre seus ombros e gritar alto.

O sistema Stanislavsky, então diluído em um “método”, mostrou-se eficaz no cinema e na televisão, mas no teatro produziu um desastroso sufocamento de entrega emocional. Acredito que a grande tragédia do palco norte-americano é o ator que, devido a um entendimento grosseiro de Stanislavsky, supõe que “se eu sinto, o público sentirá”.

Quero uma explosão artística. Nosso atual estilo de vida altamente tecnológico exige uma experiência teatral que não pode ser satisfeita pelas telas do vídeo e do cinema. Quero uma interpretação que seja poética e pessoal, íntima e colossal. Quero estimular um tipo de humanidade no palco que exija atenção, que expresse o que somos e sugira que a vida é maior. É por essa razão que estou tentando lembrar e estudar o passado e combiná-lo com as idéias mais novas da filosofia, da ciência e da arte. (…) Quero encontrar formas que ecoem nossas ambiguidades presentes.

Possuímos uma história rica, variada e única, e celebrá-la é lembrar. Lembrar é usá-la. Usá-la é ser fiel a quem somos.

Se consigo enxergar longe é porque estou apoiado sobre ombros de gigantes.

 

Até breve. Fechamos este ciclo maravilhoso de Anne Bogart, mas não sofram leitores. Logo voltaremos com um novo grande autor para iluminar nossos dias de estudos!

 

Jaque

 

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