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Memória – “A Preparação do Diretor” de Anne Bogart

4 dez

Olá leitores

Como prometido, segue o último capítulo que eu estava devendo do livro “A preparação do diretor” de Anne Bogart. Na verdade, este é o primeiro do livro.

Boa leitura!

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O ato da memória é um ato físico e está no cerne da arte do teatro. Se o teatro fosse um verbo, seria o verbo“lembrar”.

Os artistas não devem se afastar de seu tempo. Eles devem se jogar na luta e ver o que podem fazer de bom ali. Em vez de manter uma distância segura dos fétidos pântanos dos valores do mundo, devem mergulhar de cabeça neles e agitar as coisas.

A memória desempenha um papel extremamente importante no processo artístico. cada vez que se monta uma peça, está se dando corpo a uma memória. Os seres humanos são estimulados a contar histórias a partir da experiência de lembrar de um incidente ou de uma pessoa.

A verdade não pode estar lá fora – não pode existir independente da mente humana… O mundo está lá fora, mas as descrições do mundo não estão. Só as descrições do mundo podem ser verdadeiras ou falsas. O mundo em si – sem a ajuda das atividades descritivas dos seres humanos – não pode.

Raymond Rarty

O que é cultura? Acredito que cultura é experiência compartilhada. E ela está em constante transformação. (…) Imagine um vasto campo em uma noite fria de inverno. Espalhadas pelo campo, fogueiras acesas, cada uma com um grupo de pessoas bem juntinhas para conservar o calor. As fogueiras representam a experiência compartilhada ou a cultura de cada grupo reunido em torno de cada fogueira. Imagine que alguém se levanta e atravessa o campo frio, escuro, ventoso, até outro grupo reunido em torno de outra fogueira. Esse ato de força representa a troca cultural. E é assim que as idéias se espalham.

Lembrar as pessoas e os acontecimentos e redescrevê-los é usá-los, é subir sobre seus ombros e gritar alto.

O sistema Stanislavsky, então diluído em um “método”, mostrou-se eficaz no cinema e na televisão, mas no teatro produziu um desastroso sufocamento de entrega emocional. Acredito que a grande tragédia do palco norte-americano é o ator que, devido a um entendimento grosseiro de Stanislavsky, supõe que “se eu sinto, o público sentirá”.

Quero uma explosão artística. Nosso atual estilo de vida altamente tecnológico exige uma experiência teatral que não pode ser satisfeita pelas telas do vídeo e do cinema. Quero uma interpretação que seja poética e pessoal, íntima e colossal. Quero estimular um tipo de humanidade no palco que exija atenção, que expresse o que somos e sugira que a vida é maior. É por essa razão que estou tentando lembrar e estudar o passado e combiná-lo com as idéias mais novas da filosofia, da ciência e da arte. (…) Quero encontrar formas que ecoem nossas ambiguidades presentes.

Possuímos uma história rica, variada e única, e celebrá-la é lembrar. Lembrar é usá-la. Usá-la é ser fiel a quem somos.

Se consigo enxergar longe é porque estou apoiado sobre ombros de gigantes.

 

Até breve. Fechamos este ciclo maravilhoso de Anne Bogart, mas não sofram leitores. Logo voltaremos com um novo grande autor para iluminar nossos dias de estudos!

 

Jaque

 

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Anne Bogart – Resistência ou O Jatinho dos Geraldos

4 nov

Sim, caro leitor, tudo que é bom dura pouco e nós estamos aqui, no nosso penúltimo post com Anne Bogart. Prometo, no entanto, que nossos estudos não pararão por aqui e seguiremos por pouco tempo órfãos de ricas palavras de algum autor genial. Aceito sugestões de leituras, sim?

Sendo assim, degustem-na devagarzinho, como quando comemos um doce gostoso pelas bordas, para estender a sensação maravilhosa deste encontro.

Semana que vem contaremos mais detalhadamente um pouco sobre as mil e uma viagens da Trupe Geralda neste mês de Novembro. Já adianto que Números de Circo – Um espetáculo para crianças estará neste sábado, dia 08, em Monte Alto e no domingo, dia 09, será a vez do Último Sarau – uma peça de corpo presente no FENATA, em Ponta Grossa. Eba eba!!! Na terça estaremos em Penápolis tb com o Sarau e no restante da semana, acompanharemos a Mostra Final do do Projeto Ademar Guerra em Garça.

Sim…. sim… eu sei que você deve estar do outro lado da tela pensando admirado: Não sabia que os Geraldos tinham um jatinho! Ahhh que bom seria, leitor amigo. Apesar de voarmos para Ponta Grossa, o sonho do jato particular está um tanto distante de nossa realidade mambembe. O negócio é força na peruca e almofada no bumbum para enfrentar as longas horas de vans e busões. O segredo nos momentos de exaustão: não esquecer que durante as efêmeras horinhas de espetáculo, todo esforço vale sempre a pena!

 

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Seguimos com a grande. Capítulo A Resistência.

 

Enfrentar e superar a resistência é um ato heroico que exige coragem e uma ligação com o motivo para agir.

 

A maneira como nos dimensionamos diante das resistências naturais que encontramos todos os dias determina a qualidade daquilo que obtemos. (…) A qualidade de qualquer trabalho se reflete na dimensão dos obstáculos encontrados.

 

Se não há obstáculos suficientes em determinado processo, o resultado pode carecer de rigor e profundidade. (…) A resistência revigora e aumenta o esforço. Enfrentar uma resistência, confrontar-se com um obstáculo ou superar uma dificuldade exige sempre criatividade e intuição.

 

Quanto maior os obstáculos, mais você será transformado no esforço em superá-los. 

 

Preguiça, impaciência e distração são três resistências constantes que enfrentamos em quase todos os momentos em que estamos acordados. O modo como lidamos com esses três inimigos reais determina a clareza e a força de nossas realizações.

 

É natural e humano buscar a união e restaurar o equilíbrio a partir do desequilíbrio do envolvimento com a discórdia. Recite um solilóquio inteiro de Shakespeare a partir de um estado físico de desequilíbrio. Na tentativa de manter equilíbrio e não despencar enquanto fala, cada parte do seu ser busca equilíbrio, harmonia e união. Esse conflito é positivo e produtivo. Der repente, o corpo fala com surpreendente clareza e necessidade. O conflito exige precisão e articulação.  

 

Teatro é um ato de resistência contra tudo e contra todos. A arte é um desafio à morte. Nunca haverá estímulo e apoio suficiente e vamos todos morrer. Então, por que se incomodar? Por que empenhar tanto esforço em uma atividade limítrofe? Por que batalhar tanto com um negócio que no fundo é apenas artifício?

(…)

Tudo o que fazemos nos modifica. Uma grande peça oferece a mais perfeita resistência ao artista de teatro porque coloca grandes questões e trata de problemas humanos cruciais. Por que escolher uma peça insignificante com temas menores? Por que escolher um texto que você sente que consegue dominar? Por que não escolher uma peça que está um pouco além de seu alcance? O alcance é o que transforma você e lhe dá energia para trabalhar e vitalidade.

 

Ouvi uma vez um jovem diretor perguntar insistentemente a um ator, durante os ensaios técnicos, se ele estava se sentindo à vontade. Por fim, tive de perguntar a ele: “O objetivo do ensaio é ficar a vontade?” Um bom ator incomoda o diretor. Um bom diretor incomoda o ator. Eles estabelecem resistências propositais entre si porque perspectivas diferentes servem para esclarecer o trabalho em questão. Cada um tem seu ponto de vista: de fora e de dentro; da experiência da plateia e da experiência do palco. A finalidade é encontrar fluidez e liberdade através da concordância mútua em discordar.

 

Permita que eu proponha algumas sugestões de como lidar com as resistências naturais que as circunstâncias podem oferecer. Não parta do princípio de que você precisa de condições determinadas para fazer seu melhor trabalho. Não espere. Não espere tempo ou dinheiro suficiente para realizar aquilo que tem em mente. Trabalhe com o que você tem AGORA. Trabalhe com pessoas que estão à sua volta AGORA. Trabalhe com a estrutura que você vê ao seu redor AGORA. Não espere por um suposto ambiente adequado e livre de estresse no qual possa gerar algo expressivo. Não espere pela maturidade, pelo insight ou pela sabedoria. Não espere até vocêw ter certeza de que sabe o que está fazendo. Não espere até dominar suficientemente a técnica. O que você produzir agora, o que fizer com as circunstâncias atuais vai determinar a qualidade e o alcance de seus futuros esforços.

E, ao mesmo tempo, seja paciente.    

 

Saudações de Jaque Geralda

 

 

 

 

 

 

Anne Bogart: A preparação do diretor – Timidez

28 out

Olá Internautas

Como prometido, seguimos esta semana estudando o livro “A Preparação do Diretor”.

Lembrando que esta é uma seleção feita por mim e que, infelizmente, muitos trechos que podem ser interessantíssimos para você leitor, permanecerão nas páginas do livro, aguardando sua leitura 🙂 Tudo é tão interessante que a vontade é transcrever o capítulo todo.

 

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Com vocês Anne Bogart:

Todo ato criativo implica um salto no vazio. O salto tem de ocorrer no momento certo e, no entanto, o momento para o salto nunca é predeterminado. No meio do salto, não há garantias. O salto pode muitas vezes provocar um enorme desconforto. O desconforto é um parceiro do ato criativo – um colaborador-chave. Se seu trabalho não o deixa suficientemente desconfortável, é muito provável que ninguém venha a ser tocado por ele.  

 

Quando se busca a autenticidade, não se pode esperar encontrar segurança e serenidade dentro de formas, peças, canções ou movimentos herdados. O que é preciso é reacender o fogo dentro da repetição e estar preparado para se expor aos seus efeitos. Esteja preparado para se sentir desconfortável.

 

Representar é metade vergonha, metade glória. Vergonha de se exibir, glória quando se esquece de si mesmo. 

                                                                                                                                                                John Gielgud

 

O desconforto é um mestre. (…) A insegurança mantém as linhas tensas. Se você tenta evitar sentir-se desconfortável com o que faz, não vai acontecer nada, porque o território permanece seguro e não é exposto. O desconforto gera brilho, realça a personalidade e desfaz a rotina. 

(…)

Quando é escalado para determinado papel, o ator também se vê diante de uma escolha de postura. Se decidir considerar o personagem como alguém cuja visão está além de sua experiência limitada, o resultado será sensivelmente diferente do resultado de alguém que decide ver seu personagem menor que ele próprio. O primeiro viverá uma aventura maior e mais pessoal e, consequentemente, mais desconfortável. O segundo raramente experimentará qualquer coisa que já não lhe seja familiar. Durante o ensaio, ele inevitavelmente pronunciará as terríveis palavras “Meu personagem nunca faria isso”.  

 

O inimigo da arte é a pretensão: a pretensão de que você sabe o que faz, de que sabe como andar e como falar, a pretensão de que aquilo que você “quer dizer” significará a mesma coisa para aquele que o ouvem. 

 

Durante o processo de pesquisar a angústia necessária do desconforto, encontrei dez idéias úteis para enfrentar os momentos difíceis:

 

1- Você não pode se esconder; seu crescimento como artista não está separado de seu crescimento como ser humano: é tudo vísivel. 

Você tem de ter um motivo para fazer o que faz porque esses motivos são percebidos por qualquer pessoa que entre em contato com seu trabalho. É importante o modo como você trata as pessoas, como assume responsabilidade em uma crise, que valores desenvolve, sua posição política, o que você lê, como fala e mesmo as palavras que escolhe. Você não pode se esconder.

(…)

O diretor Tadashi Suzuki observou: “Não existe a boa ou a má atuação, apenas graus de profundidade do motivo pelo qual o ator está no palco.” Esse motivo manifesta-se em seu corpo e em sua energia.

(…)

O ingrediente principal de um ensaio é o interesse real e pessoal. E o interesse é um dos poucos componentes no teatro que não tem absolutamente nada a ver com artifício. Você não pode fingir interesse. Ele tem de ser genuíno. O interesse é seu motor e ele determina a distância que você vai avançar no calor do compromisso. É também um ingrediente que oscila e que muda ao longo do tempo. Você tem de ser sensível as suas vicissitudes (mudanças). 

 

2- Todo ato criativo implica um salto

Segundo Rollo May, em seu livro “A coragem de criar”, ao longo da história artista e cientistas concordam que, em seus melhores momentos, sentem que algo fala através deles. Eles conseguiram, de alguma forma, não atrapalhar a si mesmos. Alguns dizem que Deus fala através deles.

 

3- Não podemos criar resultados; só podemos criar as condições para algo acontecer

(…) Os resultados surgem por si só. Com uma mão firme nas questões específicas e a outra estendida para o desconhecido, começa-se o trabalho.

(…)

Ensaiar não é forçar as coisas acontecerem; ensaiar é ouvir. O diretor ouve os atores. Os atores ouvem uns aos outros. Você ouve o texto coletivamente. Ouve pistas. Mantém as coisas em movimento. Experimenta. Não encobre momentos como se eles estivessem subentendidos. Nada está subentendido. Você presta atenção na situação à medida que ela evolui.

(…)

Se você cuidar das condições em que está trabalhando, as coisas começam inevitavelmente a acontecer.

 (…)

Para chegar a um lugar onde algo suficientemente desconfortável possa ocorrer, coloco minha atenção nas condições do ensaio. Cuido do estado da sala, incluindo pontualidade, ausência de confusão e limpeza. Quando começamos a ensaiar, eu me concentro nos detalhes. Muitas vezes não importa que detalhes são esses, mas meu ato de concentração ajuda a harmonizar tudo e todos. Tento estar presente da maneira mais plena possível, ouvir com todo o meu corpo e então reagir instintivamente ao que acontece. O processo criativo acontece por si só.  

 

4- Para entrar no paraíso geralmente é preciso usar a porta dos fundos

(…) O comportamento afetado que encontramos no palco surge da hiperconsciência que o ator tem de si mesmo enquanto atua.

 

Ao longo da vida, Stanislavsky descobriu métodos para ocupar o lobo frontal do cérebro do ator. Ele também deve ter concluído que para entrar no paraíso é preciso ir pela porta dos fundos. Stanislavsky inventou mecanismos úteis de distração (a porta dos fundos) para que você tire a si próprio do caminho a fim de obter espontaneidade e naturalidade (paraíso) no palco. A esses desvios úteis ele atribui nomes como “determinadas circunstâncias”, “motivação”, “justificação”, “o mágico se”, “objetivos e superobjetivos”.  

Como você sai do próprio caminho? Primeiro aceite o paradoxo de que o teatro é artifício, embora busquemos a autenticidade – a arte, como disse Picasso, é a mentira que diz a verdade. 

(…)

O Ator sabe que para colher um momento autenticamente não tendencioso no palco, ele não pode simplesmente tentar ser genuíno. Nunca é tão simples. Não mais do que poderíamos, por exemplo, tocar violino com autenticidade sem lutar com a técnica. O ator enfrenta esse conflito diariamente ao aprender a lidar com o artifício através do treinamento e da prática. Um bom ator sabe que ele atua em parte como marionete e em parte graças a inspiração verdadeira, inteligência intuitiva e atenção. Ele se concentra em negociar o artifício – o tamanho do palco, a marcação, o texto, os figurinos, as luzes – até o ponto em que a mente consciente fica ocupada com alguma outra coisa de modo que a espontaneidade e a naturalidade podem chegar sem ser impedidas.

(…)

Como não podemos olhar diretamente para o Sol para não ferir os olhos, olhamos para o lado com finalidade de sentir o Sol. A naturalidade acontece quando nos concentramos não na coisa em si, mas no que está ao lado dela. 

 

5-Permita-se desequilibrar-se

A maior parte das pessoas se torna altamente criativa em meio a uma emergência. No instante de desequilíbrio e da pressão, é preciso encontrar soluções rápidas e adequadas para grandes problemas imediatos. É nesses momentos de crise que a inteligência nata e a imaginação intuitiva entram em campo. 

 

A arte começa na luta pelo equilíbrio. Não se pode criar em estado de equilíbrio. O desequilíbrio produz uma dificuldade que é sempre interessante no palco. (…) A rotina é adversária do artista. Na arte, a repetição inconsciente da zona de conforto nunca é vital ou excitante. Precisamos ficar atentos em face de nossas tendências para a rotina. 

 

6- Sentir insegurança é legítimo

É um tormento subir ao palco, mas, por outro lado, é o único lugar onde sou feliz.

                                                                                                  Bob Dylan

O trabalho do diretor não é oferecer respostas, mas sim provocar interesse. É preciso encontrar as perguntas certas e perceber quando e como fazê-las. Se você já tem as respostas, então para que ensaiar? Mas com certeza você precisa saber o que está procurando.   

 

7- Usar acidentes

As coisas sempre saem erradas. É comum acontecer o que você não planejou. Sigmund Freud sugeriu que não existe acidente. Será que o acidente pode ser um sinal? Será que ele está chamando nossa atenção? O acidente contém energia – a energia de formas não controladas.

Normalmente, quando algo dá errado, recuamos. Queremos reavaliar. Será que esse impulso pode ser invertido? No momento em que as coisas começam a dar errado, será que podemos penetrar no evento em vez de nos esquivarmos dele?

 

(…) Se nada é acidental e tudo é matéria-prima e acontece por uma razão, os acidentes podem ser canalizados para a forma do espetáculo. E essas formas contêm energia, memória e a indispensável ambiguidade.

 

8- Andar na corda bamba entre controle e caos

Se o seu trabalho é controlado demais, ele não tem vida. Se é caótico demais, ninguém consegue percebê-lo nem ouvi-lo. 

Durante o ensaio, você tem de estabelecer algo, concordar com alguma coisa. Se você predetermina tudo, se há concordância demais, não restará nada para a inspiração do momento do espetáculo. Alguns aspectos do processo têm de ser deixados completamente em paz. Controlar demais em geral significa que não há confiança suficiente na espontaneidade do ator e na capacidade do público de contribuir com o evento.

 

9- Faça sua lição de casa e saiba quando parar com a lição de casa

Pesquise, analise, faça associações livres, conceitue, prepare 150 idéias para cada cena, escreva tudo e então esteja pronto para jogar tudo fora. É importante se preparar e é importante saber quado parar de se preparar. Você nunca estará pronto e tem de estar sempre pronto para esse passo. Sua preparação o leva para o primeiro passo. E então outra coisa assume o comando.

 

10- Concentre-se nos detalhes

Em caso de dúvida, quando você estiver perdido, não pare. Em vez disso, concentre-se no detalhe. Olhe em torno, encontre um detalhe para se concentrar e faça isso. Esqueça um pouco o quadro geral. Ponha sua energia apenas nos detalhes do que já está ali. O quadro geral vai se abrir e se revelar se você ficar um pouco fora do caminho. No entanto, não vai se abrir se você pensar. É preciso permanecer envolvido, mas não sempre com o quadro maior.

 

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Fim do capítulo.

Ufa… esse post ficou mais longo do que eu esperava. A culpa é toda da Anne (Já somos íntimas. É que tenho a impressão de que quando se lê um livro gostoso, vira-se íntimo daquele que escreve), que me deixa nesse dilema de qual trecho dividir com vocês.

 

Até semana que vem 🙂

Jaque Geralda

 

Semana para se recuperar? Que nada! Os Geraldos não param!

14 out

Olá internautas

Cá estou eu para contar-lhes que nosso segundo semestre está agitadíssimo.

Depois desta semana intensa em Sorocaba, que foi tão cansativa fisicamente quanto maravilhosa espiritualmente, pensava você que nossa trupe iria dar uma pausa para descanso?

Que nada!

Segunda foi dia de ensaio e reunião.

Terça desfazemos as malas do Hay Amor! e organizamos os últimos detalhes para a próxima viagem.

Quarta fazemos as malas do Sarau e do Números.

Quinta estamos de novo com o pé na estrada! Apresentaremos O Último Sarau – uma peça de corpo presente junto com nossos pupilos Anônimos da Arte, que farão um ensaio aberto de seu novo espetáculo Era uma vez Romeu e Julieta. Essas duas apresentações fazem parte da Mostra Compartilhada do Projeto Ademar Guerra que acontecerá em Botucatu, cidade mais que especial onde moram alguns de meus familiares 🙂 Viva!!

E na sexta vamos da cidade dos bons ares para o lugar onde o peixe para. Minha terrinha, de Julia e Carol: Piracicaba! Alegria imensa poder apresentar em casa!  Viva de novo!

Seguem abaixo os convites:

 

pedro arte

anonimos

 

E o link do site do Sesi de Pira no dia 17.10:

http://www.sesisp.org.br/cultura/teatro/numeros.html 

 

E já que estamos tratando de Shakespeare, um dos maiores escritores de teatro do mundo, com o qual nossos jovens Anônimos estão trabalhando, deixo-lhes com a grande Fernanda Montenegro recitando um trecho de Antônio e Cleópatra. Arrepiem-se:

 

 

 

Até breve!

Jaque

 

 

Maratona de Hay Amor! e Anne Bogart – O Esteriótipo

10 out

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Olá leitores queridos

Nos últimos dias nossa casa anda vaziaaaaa, vaziaaaa!!! A trupe Geraldina estará em Sorocaba ao longo de toda esta semana numa maratona maluca de 11 apresentações do Hay Amor! no Sesc de Sorocaba.

Calma, meu leitor querido, não é preciso ficar chateado, pois nós jamais esqueceríamos de convidá-lo. Acontece que as apresentações, 3 por dia, são fechadas para escolas.

O grupo está participando de um projeto de formação de público e cidadão promovido pelo Sesc. Depois de cada sessão acontecem debates com os jovens, que aproveitam para tirar todas suas dúvidas sobre a vida no teatro! O espetáculo passou neste semestre por uma grande reformulação e reestreou nesta semana com direção coletiva. Contamos também com estréias na equipe: Lucas no papel de Ricardo, Paula na técnica, além de dois parceiros do grupo Tempo … Maíra na produção executiva e Giuliano também na técnica.

Os relatos dos viajantes têm sido extremamente positivos. Os Geraldos estão vivendo uma semana incrível!

Agradecemos o imenso carinho de todos pelo facebook! São mais de 40 novos amigos 🙂

 

Enquanto isso… do lado de cá eu, Roberta e nossa estagiária Tati cuidamos da casa, saudosas da barulheira corriqueira.

Fico imaginando quantos quilos a menos os atores voltarão depois desta maratona física e com quantas histórias a mais na bagagem.

 

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Estréia de Lucas 🙂

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Os novos técnicos: Paula e Giuliano.

 

 

E como de costume, seguimos estudando um pouquinho de Anne Bogart. Com vocês trechos selecionados do capítulo “O Esteriótipo” do livro “A Preparação do Diretor”:

 

O problema com os clichês não é que eles contenham idéias falsas, mas sim que constituem articulações superficiais de idéias muito boas. 

 

Devemos partir da idéia de que é nossa tarefa evitá-los visando à criação de algo inteiramente novo, ou devemos assumir os esteriótipos, passar através deles, atear fogo neles, até que, no calor da interação eles se transformam? (…) Em seu ensaio “Tradition and the Individual”, T.S Eliot sugere que a obra de um artista deve ser julgada não por sua novidade ou inovação, mas sim pela maneira como o artista maneja a tradição herdada por ele. Historicamente, ele escreveu, o conceito de originalidade refere-se à transformação da tradição através de uma interação com ela em oposição à criação de algo absolutamente novo. Mais recentemente, o mundo da arte passou a ficar obcecado pela inovação.

Para fazer Stanley Kowalski em “Uma rua chamada pecado” (vale a pena assistir a esse clássico leitor amigo), você finge que Marlon Brando nunca fez o personagem? O que você faz com os esteriótipos da camisa e da postura? Evita pensar em Brando ou estuda o seu desempenho e faz uso disso? Tenta chegar a um Kowalski inteiramente novo? O que você faz com a lembrança do público?

 

Um esteriótipo é um continente da memória. Se esses continentes culturalmente transferidos são penetrados, aquecidos e despertados, talvez possam, no calor da interação, recuperar o acesso às mensagens, significados e histórias originais que eles incorporam.

 

Como somos capazes de andar e falar, achamos que somos capazes de representar. Mas um ator deve, na verdade, reinventar o andar e a fala para ser capaz de realizar essas ações com eficiência sobre o palco. De fato, as ações mais familiares talvez sejam as mais difíceis de ocupar, seja com vida nova ou com uma cara séria.

 

Muitos atores norte-americanos são obcecados pela liberdade de fazer o que lhes ocorrer. Para eles, a idéia de Kata (na cultura japonesa significa um conjunto predeterminado de movimentos que são repetíveis) é rejeitada porque, à primeira vista, limita a liberdade. Mas todo o mundo sabe que durante o ensaio é preciso estabelecer algo (…) Se há determinação demais, o resultado é sem vida. Se há determinação de menos, o resultado é sem foco.

Portanto, se é preciso determinar algo e também deixar algo em aberto, a pergunta que surge é: estabelecemos o que é feito ou como é feito? Estabelecemos a forma ou o conteúdo? A ação ou a emoção? Graças ao generalizado equívoco norte-americano na compreensão do sistema Stanislavsky, os ensaios muitas vezes passam a se concentrar na produção de emoções fortes e, em seguida, na organização dessas emoções. Mas a emoção humana é evanescente e efêmera, e determinar as emoções diminui o seu valor. Sendo assim, acredito que é melhor determinar o exterior (forma, a ação) e permitir que o interior (a qualidade de ser, a paisagem emocional sempre cambiante) tenha liberdade para se mover e mudar a cada repetição.

 

Até semana que vem!

Jaque Geralda

 

  

 

Ismael Ivo + Anne Bogart – O Terror

1 out

Olá leitores queridos

Escrevo-lhes da casa de seu Douglas Novais, que continua a Europa em seu congresso do Aristóteles. Há 1 semana os Geraldos voltaram a idade das pedras: estamos isolados do mundo sem internet na sede. É incrível como o homem moderno depende disto.  Como é que vivíamos há alguns atrás totalmente independentes? É quase inconcebível um mundo sem rede.

Antes de nos entregarmos à grande Anne Bogart e uma seleção de trechos do capítulo O Terror, preciso falar-lhes um pouquinho de Ismael Ivo, uma lenda viva da cultura mundial, que tivemos o privilégio de conhecer.

Toda última quarta-feira do mês alguns Geraldos vão para São Paulo nas reuniões gerais do projeto Ademar Guerra. Nesta última quarta fomos eu e Paula. Sortudas! Lá estava Ismael Ivo, o curador artístico do projeto Ademar categoria dança, que será inaugurado ano que vem. Ismael é destes artistas que inflamam e contagiam todos à sua volta. Ouvindo suas histórias e relatos, começamos a nos sentir sedentos, esfomeados por aprender mais e mais, por buscar as mais diversas referências, sair pelo mundo atrás dos grandes.  A bagagem de Ismael é inacreditável: ele já trabalhou com Miriam Muniz, Yoshi Oida, Heiner Müller, Pina Bausch, Kazuo Ohno, Marina Abramovic e muitos outros, que minha reles memória não me permitirá escrever.

Enfim… isso tudo é pra dizer que o nome deste dançarino merece ser jogado no youtube. Tentei encontrar uma famosa coreografia em que Ismael, um negro de 2 metros de altura, dança entre lírios brancos, mas não encontrei. Essa idéia arrepia só de pensar. Vamos então à outro vídeo:

 

 

E agora, como prometido, passo a palavra à Anne Bogart. Bons estudos!

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“Nascemos aterrorizados e tremendo. Em face de nosso terror diante do caos incontrolável do universo, rotulamos tudo o que podemos com a linguagem, na esperança de, uma vez que algo tenha sido nomeado, não precisarmos mais temê-lo. Essa rotulação permite que nos sintamos mais seguros, mas também mata o mistério daquilo que foi rotulado, removendo a vida e o perigo do que foi definido. A responsabilidade do artista é trazer de volta o potencial, o mistério e o terror, o tremor. James Baldwin escreveu: “O propósito da arte é desnudar as questões que foram ocultas pelas respostas.” O artista tenta remover a definição, apresentar o momento, a palavra e o gesto como algo novo e cheio de potencial incontrolável.

 

Acredito que a função do teatro seja nos lembrar das grandes questões humanas., nos lembrar de nosso terror e de nossa humanidade. Em nossa vida cotidiana vivemos em uma repetição contínua de padrões habituais. Muitos de nós passam a vida dormindo. A arte deve oferecer experiências que alterem esses padrões, despertem o que está adormecido, e nos lembrem de nosso terror original. O seres humano criaram o teatro como uma reação ao terror cotidiano da vida. (…) Descobri que o teatro que não incorpora o terror não tem energia. Nós criamos a partir do medo, não de um lugar seguro e tranqüilo. Segundo o físico Werner Heisenberg, artistas e cientistas compartilham a mesma abordagem. Eles mergulham em seu trabalho com uma mão firmemente agarrada no que é específico e a outra mão no desconhecido. Temos de confiar em nós mesmos para penetrar neste abismo de maneira aberta, apesar do desequilíbrio e da vulnerabilidade. Como confiar em nós mesmos, em nossos colaboradores e em nossas habilidades a ponto de trabalhar dentro do terror que experimentamos no momento de entrar?

 

 A graça redentora do trabalho é o amor, a confiança e o senso de humor – confiança nos colaboradores e no ato criativo durante o ensaio, amor pela arte e senso de humor a respeito da tarefa impossível.

 

Normalmente acho um jeito de prosseguir entre a pesquisa e a fase de ensaios de mesa, onde acontecem as inevitáveis discussões dramatúrgicas, a análise e as leituras. Mas então, sempre chega o momento temido de pôr alguma coisa no palco. Como algo pode estar certo, ser verdadeiro ou adequado? Tento desesperadamente achar uma desculpa para fazer outra coisa, para deixar para mais tarde. Quando finalmente temos de começar de fato o trabalho no palco, tudo parece artificial, arbitrário e afetado. (…) Felizmente, depois de algum tempo nessa dança de insegurança, começo a notar que os atores estão realmente começando a transformar a encenação sem sentido em alguma coisa com que posso me entusiasmar. E à qual posso reagir.

 

Direção tem a ver com sentimento, com estar na sala com outras pessoas; com atores com designers, com um público. Tem a ver com a percepção de tempo e espaço, com respiração, com a reação plena à situação dada, com ser capaz de mergulhar e estimular o mergulho no desconhecido no momento certo.   

 

No desequilíbrio e na queda encontra-se o potencial de criar. Quando as coisas começam a cair aos pedaços no ensaio, a possibilidade de criação existe.

 

Rollo May escreveu que todos os artistas e cientistas, ao realizar seu melhor trabalho, sentem como se não estivessem fazendo a criação; sentem como se algo falasse através deles. Isso sugere que o problema constante que enfrentamos nos ensaios é como podemos parar de atrapalhar a nós mesmos? Como podemos nos transformar no veículo através do qual algo se expressa? Creio que parte da resposta está na aceitação do terror como motivação primordial e, depois, na plena escuta corporal que brota dele.

 

De que maneira podemos expressar sentimentos senão entrando no fundo deles? Como podemos capturar o mistério de angústia a menos que nos unamos à angústia? Shakespeare viveu a vida atordoado pela grandiosidade desta e em seus critérios tentou captar o que sentia, captar essa paixão de forma simbólica. Atraído para a intensidade da vida, ele reapresentou essa intensidade na linguagem. E por quê? Porque a beleza o atordoava. Porque a alma não pode aprisionar tais sentimentos.     

 

Até semana que vem 🙂

Jaque

Os Geraldos no 29º Festivale + Avner Eisenberg

16 set

Olá queridos internautas

Cá estou eu para contar-lhes brevemente sobre a nossa passagem pelo 29º Festivale de São José dos Campos.

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Na última sexta-feira a trupe Geralda madrugou. Às 5:45 da matina nos encontramos para pegar a van, carregar o cenário e descer para São José dos Campos, para onde levamos nosso espetáculo “Números” através de uma parceria com o Mosaico Teatral da Sescoop e o Festivale.

Fomos muito bem recebidos por toda a equipe técnica do festival e passamos um dia e uma noite muito agradáveis.

Na parte da tarde rolou a oficina: Iniciação a Arte do Palhaço ministrada por mim. Foram 4 horas muitos gostosas e produtivas ao lado de uma galerinha muito animada e dos novos amigos do grupo LaminiCAC. Aproveito para agradecer a celebridade local Osni pelo suporte ao longo do dia 🙂

Às 19:00 horas aconteceu a apresentação do “Números” no teatro do Shopping Centro. Foi uma bela noite de retomada do espetáculo, que estava na gaveta desde o ano passado (devido a pausa intencional para que nós focássemos na construção do novo espetáculo “O Último Sarau”). Obrigado público de São José por nos acolher tão calorosamente. Esta sexta-feira foi um daqueles dias em que se volta para casa cansado, mas com o coração leve por se trabalhar com arte e poder viver encontros especiais assim.

Para  fechar, deixo-lhes com uma bela frase do diretor italiano Fellini sobre Clowns e um vídeo a que assitismos na oficina com o excêntrico Avner Einsenberg.

“O Clown representa uma situação de desnível, de inadequação do homem frente à vida. Através dele exorcizamos a nossa impotência, as nossas contradições e principalmente, a luta ridícula e desproporcional contra os fantasmas do nosso egoísmo, da nossa vaidade e de nossa ilusão.”

Fellini

 

Divirtam-se com a simplicidade de Avner Einsenberg:

 

Abraços e até semana que vem!

Jaque Geralda